terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Erguer

Depois de tantos anos finalmente ela saiu.
Pobre senhora idosa e sem vida voltou!
Ergueu-se e venceu a sua enfermidade,
Depois de anos na sua cama imunda de desgosto,
Ela ergue-se por entre todas as suas rugas,
Frágil,
Passe a passo ela retoma o seu lugar,
Nesta caminhada apressada para sitio algum.
Quem não lembra da senhora à janela,
De fotografia na mão,
Com lágrimas a escorrerem pelo rosto?
Pobre tristeza solitária sem cor,
Sem conforto na sua dor,
Do há muito perdido amor.
Hoje olhou-se no espelho,
E viu o quanto bonita ainda era,
Quanto dócil era o seu rosto,
E profundos seus olhos.
Sabia que ainda tinha de viver,
E se assim teria que ser,
Teria que voltar a aprender,
A caminhar.
Embora com as marcas da amargura,
Ela no fundo do seu ser,
Voltou a encontrar-se na imensidão.
Hoje ela levantou-se,
Voltou a vestir aquele vestido,
Ajeitou o cabelo grisalho longo,
Calçou os tais sapatos de verniz,
Pôs o lindo colar de pérolas,
Pintou os lábios com baton rouge,
E finalmente saiu para dançar.
Dançar, 
Sair,
Viver.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ciclo

A vida não se constrói em dois dias.
Por ela são passadas horas mais ou menos longas,
E mais ou menos curtas,
Boas ou más.

Uma vida constrói-se de momentos.
Solitários ou partilhados,
E com uns aprendemos a bem,
Outros a mal.

Uma vida não se constrói sem esperança.
É preciso acreditar em algo,
E isso faz nos mover,
Ou regredir no tempo.

Uma vida constrói-se com sentimentos.
Sejam eles simples ou rebuscados,
E assim constitui-se a alma,
Pura ou renegada.

Uma vida não se constrói sem alguém.
Com alguém aprendemos a ser o que somos,
E seja ele sábio ou não,
Transformamos o nosso ser à sua imagem.

Uma vida constrói-se com tempo.
Hoje vamos dormir,
E amanhã vamos levantar-nos,
Assim completando o ciclo.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Não deixar o tempo passando

A luz há tanto esperada,
Vultos apagados,
Fantasmas esquecidos,
De uma vida parada.

Presente cansado,
De memórias perdidas,
Visões perecidas,
Num sonho desprezado.

Acordando agora nesta nova realidade,
Na passividade de um novo dia,
Pois de aventuras carecia,
E de uma nova liberdade.

Peguei nas asas e saí voando,
Dando rumo à criatividade,
Agora cheia de emotividade,
Não vou deixar o tempo passando.





terça-feira, 5 de julho de 2011

Nostalgia dos Amanheceres

Talvez um dia descobriremos o que nos reserva o futuro.
Hoje é mais um dia de primavera e continuo à procura,
O que há muito se perdeu.
Não sei se foi obra do destino,
Talvez seja obra daqueles que perdem a fé.
Há muito que deixámos de acreditar,
Talvez por isso estejamos perdidos,
Neste longo caminho.
Os anos começam a passar,
Cada vez mais depressa,
E "há sempre qualquer coisa",
Que nos levam àquelas memórias.
Não no reviver no passado,
Mas na procura de uma pedra,
Para pára pôr fim a este caminho.
E vão reaparecendo memórias,
De quando ainda tudo tinha cor,
Agora num mundo a preto e branco.
Eu já mal te reconheço,
E me reconheço a mim:
Éramos crianças à procura de algo mais,
À procura de nós,
E do que queríamos ser.
Hoje fustigado num pequena lembrança,
Recordo as tuas mãos sobre o meu peito,
Abraçando-me,
Naquela noite primaveril de maio,
Onde a lua reflectia na imensidão de um oceano e de um céu,
Que apostavam por mais do aquilo que pudemos dar.
Ficou tudo escrito nas areias daquela praia,
Por entre a espuma de água cristalina,
Que têm tanto para contar.
Histórias, como tantas outras,
Mas aquela nossa, como ela é,
Simples e terna,
De paixão infantil pura,
Que recordaremos,
Em todos os amanheceres.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Memórias embaciadas

Há muito tempo que não me sentava nesta poltrona
E olhava para o jardim.
Chegado o Inverno,
A rua despe-se de cores melancólicas,
Triste e solitárias.
Invejo as chaminés fumegantes,
Recaindo num sitio quente e acolhedor.
As minhas gélidas e enrugadas mãos,
Reescrevem as memórias de uma máquina do tempo,
Que se perdeu no passado,
E lá ficou na esperança,
De quando voltar,
Consiga ter melhorado o futuro.
Olho para a janela despida,
De madeira antiga e apodrecida,
De vidro embaciado,
Pelo calor das memórias.
Recordo-me olhar os teus olhos,
Cor de safira,
Em dias de céu azul e limpo,
De sol radiante,
De brisa fresca,
Olhando fixamente os meus.
Enternecia-me o coração,
Aquecia-me a alma.
Consigo recordar cada pedacinho,
Cada momento,
Cada beijo,
Cada toque.
Toda a emoção sentida,
Jamais perdida,
Jamais esquecida.
Esta velha e pobre alma,
Enrugada e pálida,
Coberta de mantas,
Aquecendo o enfermo coração que chora,
Recorda,recorda, recorda...
Lembra-se do som das ondas do mar,
Nos abraços ao luar,
Do coração feito de espuma,
Dos sorrisos sinceros,
E dos beijos sentidos.
Pobre velha sentindo falta do seu ente mais querido,
Aquele que a memória não apaga,
Não mata e não esquece.
E nesta poltrona,
Nos vidros velhos e embaciados,
Soltam-se raios brilhantes,
Descobrindo as cores há tanto desvanecidas,
Nas memórias não esquecidas,
Entre as paredes escuras,
Neste reconforto da solidão.
Assim olhando para trás, ela sorri e vive,
Com sorriso rasgado e brilhante,
Revivendo os melhores tempos da sua vida.